Como acessar artigos científicos de graça?

Um aluno finalizando correções de sua tese, se depara com o comentário de seu orientador: 
-"Adicionar ao fim dessa frase, referência Osman et al., 1998, por favor". 

Em uma busca no Google, o aluno se surpreende. Para ler Osman et al., 1998, a revista exige uma simbólica contribuição de 30 dólares. Isso mesmo, 30 dólares, mais de 100 reais, para que o aluno possa ler um único trabalho, que foi financiado com dinheiro público. Os autores, os revisores, não receberam nenhum centavo da revista pela publicação do trabalho. Mas essas são as regras.

Em Abril de 2011, as regras mudaram. Em um plot twist, uma cientista do Cazaquistão, Alexandra Elbakyan, criou o Sci-hub - site capaz de burlar o sistema de pagamento para acesso do artigo. Ele possuí um site irmão, chamado LibGen. Esses servidores piratas, muitas vezes chamados de PirateBays da ciência, já contém mais de 51 milhões de artigos, sendo de fácil uso. Um breve tutorial abaixo: 

Imagine que, o link do artigo que você quer acessar seja:

http://www.pesquisabiomed.blogspot.com/artigo-interessante.pdf

Para acessar o artigo pelo Sci-hub, basta adicionar .sci-hub.bz ao final do .com indo para este endereço:

http://www.pesquisabiomed.blogspot.com.sci-hub.bz/artigo-interessante.pdf

E, voilà! Se um dos servidores do Sci-hub tiver acesso a esse artigo ele te direcionará à versão PDF do seu artigo de interesse. 100% de graça, e obviamente, 100% ilegal.



O fato de ser ilegal não está impedindo quase ninguém de utilizar o serviço. A revista Science publicou que em um período de apenas 6 meses, o Sci-hub teve mais de 28 milhões de downloads de artigos científicos. Cientistas do Irã até do Vale do Silício estão utilizando. Brasileiros, inclusive, são uma parcela significativa. (Nesse site é possível ver quais foram os artigos mais baixados em diferentes regiões do país).

Caso o Sci-hub seja bloqueado

É uma questão de tempo para que as editoras conseguam tirar, ao menos temporariamente, o Sci-hub do ar. Nesse caso, quais seriam as alternativas de obter gratuitamente artigos científicos?

1) Google Acadêmico. É a melhor forma, depois do Sci-hub. Lá, é possível encontrar links para PDF do artigo anexados em outros sites, como sites de laboratório, ou o no Researchgate;

2) Pedindo diretamente para os autores por e-mail. Normalmente, autores são solícitos quando alguém está interessado em ler seus trabalhos;

3) Twitter. Sim, uma das formas de conseguir um artigo de interesse é pedir o artigo para alguém que tenha acesso com a hashtag #iCanHazPDF;

4) PrePubmed ou preprints: Está cada vez mais frequente pesquisadores na área biomédica depositarem seus trabalhos em uma versão que precede a revisão de pares em uma formato chamado preprint. O banco de preprints mais famoso na área biomédica é o bioRxiv, e uma das formas de procurar em todos bancos de preprint de uma vez é utilizar o site PrePubmed.

Se nenhuma dessas estratégias funcionar, uma última alternativa é procurar em bibliotecas de universidades. Pergunte para seu orientador, mas não faz tanto tempo que essa era a única forma de conseguir ler artigos científicos.


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Academia Brasileira de Ciências alerta governo sobre possível fusão de Secretarias no Rio de Janeiro

Em documento enviado nessa sexta-feira (21/10) para Luiz Fernando Pezão (Governador do Rio de Janeiro), SBPC (Sociedade Brasileira de Progresso para Ciência) e ABC (Academia Brasileira de Ciências) alertam que fusão de Secretaria de Ciência, Tecnologia e Inovação com a da Educação poderia causar prejuízos enormes para ambas as áreas e também para o Estado do Rio de Janeiro e sua população.

“A existência da Secretaria fluminense de CT&I certamente contribuiu para que o Estado desenvolvesse as condições de se tornar atrativo a uma série de empresas, muitas delas de expressão mundial, que optaram por se instalar no Rio de Janeiro em anos recentes”, ressalta o documento.

Para as instituições, a junção das respectivas Secretarias seria prejudicial, especialmente no médio e no longo prazo. Na carta, entidades afirmam que incorporação ignoraria as naturezas diferentes da área de CT&I e da área educacional. “São áreas complementares – assim como há complementariedade entre tantas outras áreas -, mas distintas. A gestão da pasta educacional e a implementação das políticas na área exige o domínio de um conjunto específico de conhecimentos teóricos e competências práticas que devem resultar na formação acadêmica e cidadã de crianças, adolescentes e jovens”.




Veja aqui documento.

Entropia Coletiva: A primeira plataforma de crowdfunding científico do Brasil

A bióloga brasileira Marcela Uliano queria entender melhor a biologia do Mexilhão Dourado - espécie invasora, que ameaça a biodiversidade da Amazônia. Marcela estruturou seu projeto para que ele fosse financiado pelo financiamento coletivo. Ela usou uma plataforma de crowdfunding para apresentar a pesquisa, objetivos e o valor para sua realização. Algo que chamou atenção do público, era que com uma contribuição pequena, como 20 reais, já era possível adquirir uma recompensa. No caso, colocar seu nome em uma proteína estrutural do Mexilhão. Ao final da campanha, ela arrecadou aproximadamente R$ 40 mil para realização do projeto. 

Além dela, outro exemplo foi o crowdfunding organizado pela ex-professora da UFRJ, Suzana Herculano, que conseguiu arrecadar em 2015, mais de 110 mil reais para manter seu laboratório funcionando com a crise de financiamento público.



Esses exemplos refletem uma tendência mundial. Em outros países, o crowdfunding também já é uma febre. Projetos científicos podem ser financiados por dinheiro de interessados. E no meio disso, existem sites dedicados apenas para o financiamento de projetos científicos, como o Experiment. A Lifespan.io, por exemplo, é uma plataforma de crowdfunding apenas para projetos na área da biologia do envelhecimento. No Brasil, essa lacuna ainda não havia sido preenchida, não havia uma plataforma focada em financiar projetos científicos por crowdfunding. Até agora.

Recentemente, surgiu o projeto intitulado Entropia Coletiva, fundada por três jovens cientistas brasileiros. Essa é a primeira plataforma brasileira de crowdfunding científico. Em breve, será possível que pesquisadores estruturem e lancem suas campanhas de financiamento coletivo. Interessados e amantes da ciência poderão analisar e financiar projetos - recebendo recompensas por isso. Se a campanha alcançar a meta estipulada, 13% do valor total arrecadado é transferido para a empresa e o resto vai para o pesquisador. Por fim, é comum que os contribuidores recebam em primeira mão o andamento e avanços do projeto - um baita estímulo para os curiosos!

E, como aumentar suas chances de ter seu projeto financiado? Um estudo publicado esse ano, analisou dados de mais de 300 projetos de crowdfunding científicos, e descobriu que projetos têm bem maiores chances de ser financiados se incluírem vídeos, animações com um toque de humor. Por fim, eles viram que propostas depositas em plataformas voltadas para ciência têm taxas de sucesso bem melhoers do que projetos científicos que foram apresentados em plataformas gerais de crowdfunding, como o Kickstarter

Leia mais:

Os 10 melhores cursos de biomedicina de 2016, segundo a Folha

O ranking universitário da Folha avalia anualmente o ensino superior brasileiro. O ranking para classificação das universidades leva em conta cinco indicadores: pesquisa, internacionalização, inovação, ensino e mercado. Já o ranking dos cursos, leva em conta dois indicadores: ensino e mercado.



Confira os 10 melhores cursos de biomedicina do Brasil em 2016:

Universidade de São Paulo (USP)
Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP)
Universidade Federal de São Paulo (UNIFESP)
4º Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)
5º Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG)
6º Universidade Estadual de Londrina (UEL)
7º Universidade Federal de Uberlândia (UFU)
8º Universidade Federal do Pará (UFPA)
9º Universidade Federal de Pernambuco (UFPE)
10º Universidade de Franca (UNIFRAN)


Sua universidade não está aí? Você pode ver a lista completa aqui.

Leia mais:
Ranking da Folha de 2015

Quem vai vencer o prêmio Nobel de Medicina esse ano?

Nenhum brasileiro até hoje foi laureado nas diferentes categorias do prêmio Nobel (a não ser que consideremos Peter Medawar, vencedor do Nobel de Fisiologia de 1960, que nasceu em Petrópolis, mas viveu no país apenas até os 13 anos de idade).

Na semana do dia 03 de outubro será divulgado em Estocolmo, Suécia, os vencedores do prêmio Nobel de 2016. Arriscamos em dar um palpite de quem irá vencer esse ano. Infelizmente, não deve ser dessa vez que o Brasil vai vencer a disputa.

Indo ao ponto, nossa aposta para os vencedores do prêmio Nobel de Fisiologia em 2016 é:

Emmanuelle Charpentier (França), Feng Zhang (China) e Jennifer A. Doudna (Estados Unidos) pelo desenvolvimento da técnica CRISPR-Cas9 como forma de edição de genomas.






Sim, certamente, você já ouviu falar de CRISPR. Senão, você ainda escutará bastante. A técnica inovadora CRISPR-Cas9 permite a edição genômica de diferentes animais, incluindo humanos. Ela foi inspirada no sistema imunológico primitivo de bactérias estreptococos que o usam para se defender de infecções virais. Essas bactérias expressam um conjunto de enzimas chamadas Cas, que conseguem clivar certas sequências de DNA, eliminando assim, vírus invasores. Essa maquinaria foi adaptada por esses três pesquisadores para que pudessem clivar sequências de interesses em outros organismos, funcionando até mesmo em células humanas.


As aplicações da técnica vão desde, no futuro, curar algumas doenças pela terapia gênica, até permitir que pesquisadores possam estudar a função de diferentes genes em organismos, modificando-os da forma como melhor desejarem.

Um dos projetos em andamento mais ambiciosos inspirado pela técnica é o de modificar o genoma de porcos para permitir transplante de órgãos para humanos. A idéia inusitada é do professor George Church (Harvard). Se tentássemos hoje transplantar um órgão de um porco em humanos, muito provavelmente este seria rejeitado por nosso sistema imune. Entretanto, se alguns dos genes do porco forem modificados a expectativa é de que nosso sistema imune não reconheceria o órgão como de outra espécie - permitindo assim, o transplante. Outro projeto, do mesmo grupo, pretende modificar o genoma de um elefante para torná-lo parecido com a espécie extinta, mamute.

Nesse meio tempo, uma disputa muito maior teve início. Quem terá os direitos de patente sobre o uso de CRISPR-Cas9? De um lado está a dupla Emmanuelle (Max Planck) e Jennifer Doudna (Universidade de Berkeley) que foram as primeiras a propor a técnica, em 2012. Do outro lado, está o chinês Feng Zhang (Instituto Broad/MIT) que pede a prioridade por ter conseguido um feito extraordinário - ser o primeiro a usar a técnica para edição do genoma em células humanas.

Certamente, a disputa jurídica ainda vai dar pano pra manga, por bastante tempo. Porém, para o reconhecimento do prêmio Nobel, isso não importa. Todos os três cientistas deram importantes contribuições para uma das maiores invenções dessa década e são grandes favoritos para serem laureados daqui duas semanas.


Leia mais:
3 trabalhos que foram rejeitados antes de vencerem o prêmio Nobel
Vídeo explicando o que é CRISPR

O que são preprints?


Físicos fazem. Cientistas da computação. Matemáticos, e até mesmo, economistas. Chegou a vez dos biólogos de divulgarem seus resultados online antes da revisão por pares.


Preprint é uma versão de um artigo científico que precede a revisão por pares e a publicação formal. 

Publicar um artigo é algo demorado. Experimentos que foram iniciados hoje podem só ser publicados em revistas científicas daqui 5 anos. Preprints surgem da necessidade de contornar essa demora, que é uma consequência do rigoroso sistema de revisão por pares. Uma pesquisa feita pela Nature mostra que a maioria dos cientistas já levou até 2 anos para publicar um artigo após submetê-lo em uma revista. Essa demora afeta a disseminação da informação. Pode também prejudicar a carreira de cientistas, já que estes só recebem reconhecimento após suas pesquisas serem publicadas.

Publicação preprints vs revisão por pares. Modificado de Science.


As vantagens de um sistema de preprints para a área biomédica são evidentes. Em primeiro lugar, a informação é disseminada mais rapidamente para a comunidade científica. Outra vantagem é que o conteúdo é disponível gratuitamente. Por fim, também há vantagens para os pesquisadores que estão disponibilizando o conteúdo. Eles recebem o feedback de seus pares antes de tentarem submeter o trabalho em uma revista.

A maior plataforma de preprint na área biomédica atualmente é a BioRxiv, mantida pela instituição americana Cold Spring Harbor Laboratory. O serviço está sendo bem aceito internacionalmente. Ao menos, três laureados do Nobel já publicaram na plataforma. Além disso, o recente trabalho brasileiro sobre a Zika saiu na PeerJ (outra plataforma de preprint na área biomédica), antes de ser publicado na Science.

Como o sistema é novo, alguns pontos são apontados como problemas em potencial. Um deles é o fato de que a informação disponível lá ainda não foi revisada por outros especialistas, podendo conter conclusões que não são suportadas pelos resultados. Outra questão é que agora o cientista terá de procurar a informação nas diferentes plataformas de preprint se quiser manter-se atualizado (Essa questão foi recentemente resolvida, com o surgimento do PrePubmed). Por fim, para pesquisadores brasileiros, ainda não está claro como poderemos incluir preprints na plataforma Lattes, e nem quais serão as políticas da agência de fomento quanto o assunto.

Assim como no campo da Física, preprints acelerarão o progresso da ciência e a disseminação da informação. Porém, muitas questões ainda estão em aberto e precisam ser resolvidas: Quais revistas aceitarão trabalhos que já foram publicados como preprints? E, se um grupo publica um preprint e outro, logo em seguida, publica em uma revista, quem tem o direito sobre a descoberta?


Leia mais:
Discussão sobre preprints na revista Cell
Discussão sobre preprints na revista Nature
Discussão sobre preprints na revista Science

3 trabalhos que foram rejeitados e venceram o Prêmio Nobel

"Uma nova verdade científica não triunfa porque os que se opunham a ela veem a luz e saem convencidos, mas porque eles acabam morrendo e surge uma nova geração mais familiarizada com ela.
Thomas Kuhn

Sim, até mesmo ideias inovadoras que venceram o prêmio Nobel foram rejeitas inicialmente pela comunidade científica. Separamos aqui 3 desses casos:


1. Paul Boyer, Prêmio Nobel em Química (1997) pela Identificação do mecanismo de síntese de adenosina trifosfato (ATP).

Rejeitado por Journal of Biological Chemistry.



2. Hans Krebs, Prêmio Nobel em Medicina (1953) pela Descoberta do ciclo de Krebs

Rejeitado por Nature



3. Kary Mullis, Prêmio Nobel de Medicina (1993) pela Invenção da Técnica de PCR

Rejeitado por Science


 
biz.